Cobrança de taxas entra em processo de revisão

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Veículo: Revista Cobertura – Mercado de Seguros

Em um ano em que a rentabilidade de alguns fundos acumula perdas que vão de 15% a 21%, o mercado de previdência começa a rever a cobrança de taxas que até então ficavam invisíveis aos olhos do investidor. O cenário de juros mais baixos, aliado a uma Bolsa de Valores sem performance animadora aos investidores, traz à tona uma pauta relativamente nova para as seguradoras: a necessidade da cobrança da taxa de carregamento, se ela deveria ser praticada na entrada ou na saída dos aportes e qual o teto para a taxa de administração considerando o perfil e a exposição ao risco de cada fundo.

A líder deste mercado, Bradesco Vida e Previdência, foi a primeira grande seguradora a anunciar mudanças como resposta à nova conjuntura macroeconômica no país. A partir de janeiro do próximo ano irá comercializar uma nova família de produtos de previdência sem carregamento nos aportes mensais. “O investidor não pagará mais carregamento nos aportes iniciais e quem ficar mais de dois anos com a gente não pagará nem na retirada dos recursos. Além disso, a taxa de administração será regressiva e automática, conforme o acúmulo de riqueza. Não precisa negociar mais. Ela cairá sozinha”, afirmou ao Valor o presidente da instituição financeira, Lúcio Flávio Condurú de Oliveira, sem antecipar qual seria o intervalo entre o teto e o piso dessa taxa de gestão.

Apesar da resistência de algumas seguradoras, a eliminação da taxa de carregamento é vista como uma tendência natural desse mercado. Mesmo com a reversão da trajetória da Selic (taxa básica da economia), que após as quedas sequenciais em 2012 voltou a subir neste ano de 7,25% para 10%, muitos executivos acreditam que isso vai mudar novamente. “No longo prazo, o Brasil deve retomar a diminuição dos juros e nós temos que oferecer vantagens para o investidor de longo prazo”, defende Condurú Oliveira.

Os economistas concordam com o cenário futuro vislumbrado pelo presidente da Bradesco Vida e Previdência, mas também defendem que esta é uma taxa que nunca deveria ter existido. “A taxa de gestão foi criada para remunerar o gestor e a de carregamento para cobertura de custos. É um eufemismo. Muitos fundos de outras categorias cobram uma única taxa para cobrir todos os seus gastos. Por que na previdência deveria ser diferente?”, questiona o professor de finanças da Fundação Getúlio Vargas, Paulo Gallo.

Apesar de estar incomodado com a cobrança da taxa de carregamento nos aportes iniciais, o diretor de investimentos e previdência do Itaú Unibanco, Claudio Sanches, ainda estuda a melhor solução para ela. De acordo com ele, no longo prazo, a taxa de carregamento na entrada deve sumir. “Mas ainda estamos vendo qual a melhor maneira de fazer isso”, avalia Sanches, cujas taxas de administração variam de 0,5% a 2% ao ano nos fundos de previdência da segunda maior seguradora do país.

Mais adiantado, o Santander diz já saber o que quer e que estuda neste momento as mudanças que adotará a partir de janeiro, levando em consideração o perfil de cada cliente. “Devemos adotar o carregamento regressivo só na saída, indo de 2% em seis meses a 0,5% em até dois anos. A partir daí, a taxa desaparecerá”, afirma o diretor de previdência do Santander, Gustavo Lendimuth. Em relação às taxas de administração, elas podem variar de 0,7% a 2,5%, dependendo da exposição ao risco do fundo.

Entre as seguradoras de menor porte, a Icatu foi a que ousou primeiro e defende há algum tempo que não faz sentido cobrar o carregamento na entrada. “Aqui, nós praticamos um carregamento regressivo na saída, que vai de 3% no primeiro ano a 1% no terceiro. A partir daí, não se cobra mais nada”. É o que afirma Sérgio Prates, superintendente da seguradora do Icatu, que pratica na gestão taxas que variam de 0,7% a 2% ao ano, dependendo da quantidade de recursos que são alocados nos fundos.

Colocando as contas todas na ponta do lápis, fica evidente o quanto essas taxas comprometem a rentabilidade dos fundos. De acordo com o estatutário e professor da FipeCafi, Newton Conde, sócio da Conde Consultoria, no longo prazo a taxa de administração é ainda mais corrosiva do que a de carregamento. Isso ocorre porque enquanto o carregamento incide sobre os aportes mensais, a taxa de gestão incide sobre todo o patrimônio.

“Se você contribuir por 35 anos com R$ 500 ao mês, por exemplo, vai acumular R$ 451 mil, considerando ganho real de 4% ao ano. Se a seguradora cobrar 0,5% de gestão desse fundo ao ano, o investidor perderia R$ 45 mil no final de todo o período. Se cobrar 3%, ele perde R$ 200 mil”, explica Conde.

O professor também chama atenção para o fato de que, além de lutar pelo não pagamento da taxa de carregamento, o investidor deve sempre prestar atenção na relação custo benefício da taxa de gestão. “Acima de 1% ao ano em um fundo conservador não faz sentido”, afirma ele.

Essas contas podem ser uma boa explicação para o ranking feito pela consultoria de gestão e investimentos FinPlan, que classificou os dez fundos mais rentáveis e também os menos rentáveis no ano. Algumas instituições, como Itaú e BrasilPrev, aparecem tanto em uma ponta quanto em outra. O que explica esse comportamento?

Além da mudança da curva de juros a partir de maio deste ano, em carteiras que estavam com vencimentos alongados, as taxas também influenciaram. “Os planos de previdência têm um benefício fiscal que acaba desaparecendo em meio a tantas taxas. A taxa de administração tem que variar conforme a complexidade e risco do fundo. Para estar acima de 1% a gestão tem que ser ativa e remunerar melhor o investidor”, diz Mailson Hykawei, sócio da FinPlan.

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