Lucro cresce 16% e analistas preveem mais investimento

 

 

As empresas de capital aberto passaram praticamente ilesas pelas turbulências do terceiro trimestre, quando as fortes emoções do período eleitoral acirraram os ânimos e colocaram a economia em compasso de espera.

Agora, passado o temporal, a expectativa de analistas é de continuidade desse desempenho positivo e aumento do nível de investimentos, já que as empresas fizeram os ajustes internos necessários e terão espaço para crescer.

De julho a setembro de 2018, o lucro líquido combinado de 281 empresas não financeiras cresceu 16% ante o mesmo período do ano passado, para R$ 21,3 bilhões, segundo levantamento do Valor Data.

A receita líquida das 281 companhias avançou 17%, para R$ 406,6 bilhões. O resultado operacional (antes do pagamento de juros e tributos) cresceu 26%. Com isso, o lucro operacional acumulado até o terceiro trimestre de 2018 foi de R$ 49,8 bilhões. A margem de lucro operacional ficou em 12,2% – 0,9 ponto percentual acima da apurada no mesmo período de 2017.

Esses números excluem resultados de Petrobras, Vale e Eletrobras, para não distorcer a visão geral da situação das outras empresas. Com as três, o lucro consolidado é de R$ 32,1 bilhões, um avanço de 22% na comparação anual.

Para David Beker, chefe de economia e estratégia do Bank of America Merrill Lynch no Brasil, as companhias fizeram “a lição de casa” até o terceiro trimestre, com corte de custos e desalavancagem, o que ficou nítido com o crescimento das empresas, mesmo com uma revisão para baixo na projeção de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) para o ano de 2018.  “Os resultados continuaram fortes e o mercado já muda o foco para 2019”, disse.

Segundo pesquisa Focus, do Banco Central, divulgada ontem, o PIB de 2018 deve subir 1,39%.

André Carvalho, estrategista de ações do Bradesco BBI, também avaliou que o terceiro trimestre de 2018 ficou marcado pelo forte contraste entre a realidade das empresas e o ambiente econômico, contaminado pelas dúvidas em torno das eleições.

“Enquanto o lado micro estava em ótimo estado, com o endividamento sob controle e redução da inadimplência, havia uma névoa no lado macro, que impedia a previsão do que iria acontecer no dia seguinte”, disse Carvalho.

Essa névoa, segundo o estrategista, deve permanecer até o fim deste ano e se dissipar em 2019, à medida que o governo do presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL) avançar com as reformas. “Antes das eleições, as empresas estavam em compasso de espera, com planos de investimento e contratações pausadas. A partir de agora, vamos ver a economia acelerar com a retomada dos investimentos”, disse Carvalho.

O tamanho do aumento dos investimentos ainda é difícil de ser quantificado, mas a tendência é que cresça, segundo Luiz Ribeiro, chefe da área de gestão de recursos de terceiros do Deutsche Bank no Brasil. “Em relação ao terceiro trimestre de 2017, os investimentos cresceram pouco e ainda para um nível muito baixo”, disse Ribeiro, destacando que nos últimos 12 meses o investimento foi pouco mais da metade do registrado em 2015.

O Deutsche Bank e o Bank of America Merrill Lynch projetam que as empresas tenham alta de 25% do lucro em 2018 e nova expansão de 25% em 2019. Já a Santander Corretora espera 20% a mais em 2019.

Ribeiro, do Deutsche Bank, ponderou que mesmo com crescimento de 25% em 2018 e 2019, o nível dos lucros ainda está aquém do patamar de 2011. “A base de comparação ainda é fraca. Se os lucros crescerem em torno de 25% em 2018 e 25% em 2019, ainda assim estariam 15% abaixo do nível de 2011”, disse.

Segundo Daniel Gewehr, estrategista-chefe da Santander Corretora, os setores de melhor desempenho serão aqueles diretamente ligados ao consumo doméstico, como varejo e bens de capital, a exemplo do ocorrido no terceiro trimestre de 2018. “Entre os nossos analistas, 53% avaliaram os resultados [do terceiro trimestre] como positivos e 20% como negativo. O setor de destaque foi varejo, que ficou acima do consenso”, disse.

Lucas Tambellini, estrategista de ações do Itaú BBA, acredita que setores ligados à economia doméstica, como o de consumo, podem surpreender positivamente já no quarto trimestre de 2018, se a melhora da confiança das empresas for concretizada no aumento das vendas de fim de ano. Por outro lado, as companhias ligadas à commodities devem ser afetadas pela queda dos preços e pelo recuo do dólar.

A melhora do desempenho operacional, que sustentou os ganhos, também contribuiu para a queda da alavancagem das companhias, mesmo em um trimestre marcado pelo aumento expressivo das despesas financeiras e da dívida financeira líquida.

Influenciadas pela valorização do dólar – que, no meio da agitação pré-eleitoral chegou a R$ 4 -, as despesas financeiras das empresas avançaram 95%, na comparação anual, chegando a R$ 21,5 bilhões. A dívida financeira líquida cresceu 4,7%, para R$ 564 bilhões.

O índice de alavancagem, medido pela relação entre a dívida líquida e o Ebitda acumulado em 12 meses, ficou em 2,11 vezes, contra 2,43 vezes no terceiro trimestre do ano passado.

O estrategista do Santander lembra que no auge da crise, em 2015, a alavancagem chegou a um patamar superior a 3,7 vezes. “A alavancagem caiu mais com o crescimento do Ebitda [desempenho operacional] do que com a melhora da dívida”, ressaltou.

De julho a setembro, o Ebitda – uma medida não contábil – combinado das empresas subiu 21%, somando R$ 73,9 bilhões.

Considerando Petrobras, Vale e Eletrobras, o levantamento feito pelo Valor Data mostra que 158 melhoraram o desempenho, em relação ao lucro ou prejuízo apurado no terceiro trimestre de 2017 e 126 pioraram o desempenho, considerando o mesmo critério.

Fonte

Por Marcelle Gutierrez e Rita Azevedo | De São Paulo
Link da matéria: https://goo.gl/4PzTtG

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