O Banqueiro dos Pobres

O economista Muhammad Yunus é conhecido no mundo todo como “o banqueiro dos pobres”. Por meio do Grameen Bank, que ele fundou em 1983 em Bangladesh, Yunus espalhou em escala internacional o conceito do microcrédito: empréstimos feitos, sem garantias ou papéis, para gente pobre que nunca antes teve acesso ao sistema bancário. Tal fomento ao empreendedorismo, sobretudo entre mulheres, e seus resultados efetivos lhe renderam, entre outros prêmios, o Nobel da Paz em 2006.

“Há 85 pessoas no mundo que têm mais da metade de toda a riqueza do planeta. Já a metade mais pobre da população mundial detém menos de 1% desses recursos. “

Foi a partir de reflexões como essa que Yunus começou a desenvolver a ideia e soluções de como o crédito poderia ser um meio para permitir as pessoas saírem da pobreza. As instituições financeiras tradicionais nunca foram capazes de satisfazer as necessidades dos pobres em termos de crédito, e isso foi assumido por agiotas locais.

Indignado com a situação de centenas de pessoas de uma aldeia próxima a universidade onde lecionava, em 1976, Yunus fez o primeiro empréstimo para que as pessoas parassem de procurar exploradores. Eram quantias mínimas – o primeiro empréstimo foi de USD 27 que favoreceu uma lista de 42 pessoas.

Grameen Bank (GB), que vem da palavra “gram”, que quer dizer “aldeia”, inverteu a prática bancária convencional, eliminando a necessidade de garantias e criando um sistema bancário baseado na “accountability”, confiança mútua, criatividade e participação.Dado cenário apresentado, a questão suscita na leitura, e que se relaciona diretamente com o estudo da Teoria da Contabilidade é: de que forma é estabelecido o “contrato” entre os agentes para que o banco se mantenha até hoje fazendo empréstimos a pessoas “miseráveis” que não apresentam garantias, e que como agentes racionais poderiam dar calote e assim inviabilizar esse banco?Sabendo-se que um agente racional não adere a um contrato que promete menos do que a melhor alternativa conhecida e disponível e que uma firma consiste de um conjunto de relacionamentos ou de contratos, explícitos ou implícitos, que vincula seus agentes em certos padrões de expectativas e comportamentos, apresenta-se a seguir a relação (dos principais) agentes e contratos no sistema criado por Yunus.

AGENTES e CONTRATOS:

  1. Beneficiário(s): descobriu-se que a constituição de um grupo para empréstimos era essencial para o sucesso do plano pelos seguintes motivos:

  • Individualmente, um pobre se sente exposto a todos os tipos de perigos. O fato de pertencer a um grupo lhe dá a sensação de segurança.

  • O indivíduo isolado tem tendência a ser imprevisível e indeciso. Num grupo ele se beneficia do apoio e do estímulo de todos, e com isso seu comportamento se torna mais regular e ele passa a ser um financiado mais confiável.

  • O sentimento de competição que se instaura no grupo e também entre os diferentes grupos incita cada um a fazer o melhor.

  • É difícil de controlar isoladamente indivíduos que fazem empréstimos, é muito mais fácil fazê-lo se eles integram um grupo.

Tais grupos serão aqui tratados como “beneficiário” pois como definido pelo Prof Shyam Sunder, os grupos homogêneos de agentes com preferencias e dotações similares podem ser entendidos como um único agente.

O(s) beneficiário(s) preferencialmente eram mulheres; pois, pela prática constatou-se que mulheres que vivem na miséria se adaptam melhor e mais rapidamente ao processo de auto-assistência, são mais aplicadas, revelam uma constância maior no trabalho e o dinheiro utilizado por elas beneficia mais o conjunto dos membros da família.

Antes do Grameen as mulheres representavam menos de 1% de todos os empréstimos concedidos em Bangladesh.

Características do contrato:

  • Provar sua pobreza

  • Todo candidato a um empréstimo é encarregado de constituir um grupo, com 5 pessoas não aparentadas mas que tenham a mesma mentalidade e o mesmo status socioeconômico

  • Os pedidos de empréstimos individualmente devem ser aprovados pelo grupo que a partir de então se sente moralmente responsável por eles

  • Em caso de dificuldade, os membros do grupo se ajudam uns aos outros

Direito(s) dos beneficiários: empréstimos anuais de USD 15

Contribuições dos beneficiários: o modus operandi, do banco que obriga que os empréstimos sejam tomados em grupos, promove uma poderosa rede social envolvendo os mutuários em reuniões semanais. Estas redes de apoio capacitam o grupo de mulheres para expandir seus negócios, pagar os empréstimos e prosperar de formas que não foram possíveis exclusivamente fornecendo capital financeiro individualizado.

Logo, a confiança adquirida pelos membros, o senso de independência das mulheres e o impulso na melhoria da condição social de seus familiares, dentre outros bons efeitos colaterais, é em resumo o “capital social”. E, com isso, está sendo possível promover uma mudança no cenário rural de Bangladesh.

  1. Funcionários: tem papel chave no processo pois são os responsáveis em captar os potenciais “beneficiários”, explicar e convencê-los da proposta do banco e dos benefícios que isso lhes renderá. Além disso, são eles quem treinam e capacitam os beneficiários para participarem do programa.

Tais tarefas são bastante desafiadoras pois além das dificuldades naturalmente esperadas de tratar de empréstimos com pessoas miseráveis, trata-se de uma sociedade com cultura e regras bastante específicas e rígidas. Como por exemplo, mulheres não podem falar com homens que não sejam os seus maridos.

Características do contrato:

  • Enquanto que os bancos tradicionais pedem aos clientes que se dirijam a suas agências, o Grameen parte da ideia de que cabe ao banco ir até as pessoas

Direitos: receber seus salários mensais

Contribuições: captar, esclarecem dúvidas, treinar e capacitar os candidatos

  1. Banco: tem como objetivo principal acabar com a pobreza através da uma nova lógica para o crédito. Os quatro princípios do Grameen são: disciplina, união, coragem e trabalho árduo.

Características do contrato:

  • Empréstimos por um ano

  • Prestações semanais de um montante fixo

  • O pagamento começa a ser feito uma semana depois do recebimento do dinheiro

Taxa de juros de 20% a.a

  • A cada semana paga-se 2% da soma emprestada, durante cinquenta semanas

  • Os juros representam a soma de 2 takas por semana para um empréstimo de mil takas (2 BDT = 0.024 USD e 1.000 BDT = 11.90 USD)

  • O banco não se utiliza de aparelhos judiciários para recuperar dinheiro

  • Não há provas jurídicas entre o financiador e o financiado (relação na confiança e com base na honestidade) – 1% de inadimplência

  • Visitas semanais e mensais aos beneficiários para verificar a saúde financeira deles e garantir que eles vão poder pagar com juros o dinheiro recebido e que toda sua família esteja se beneficiando dele

Direitos: receber o pagamentos dos empréstimos com taxa de juros de 20% a.a.

Contribuições: capital financeiro e (econômico) melhora na condição social das famílias contempladas com os empréstimos e estimula o tomador do empréstimo a explorar seu potencial e criatividade.

Considerações dessa pensata do livro:

Após a leitura do livro “O Banqueiro dos Pobres”, concluo que o modelo criado por Yunus, apesar de contrariar a dinâmica dos bancos comerciais que vincula o crédito a comprovação de garantias, é uma proposta fortemente embasada na teoria das organizações como um conjunto de contratos.

Pois, assim como definido por estudiosos, “contratos” são entendimentos mútuos, sejam formais ou informais. Logo, tanto um aluguel de um apartamento quanto um compromisso de almoço com um amigo são contratos e os agentes são indivíduos ou outras organizações.

E é justamente por conta dos contratos muito bem pensados e estruturados do Grameen que os beneficiários, que são agentes ‘racionais’ e portanto não escolhem intencionalmente o que não os agradam, reconhecem os benefícios gerados pelo banco e consequentemente prezam pela manutenção do relacionamento e de tudo que isso envolve.

Autora

Ligia Vendrami

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Orientador 

Rudah Giasson Lucas

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